domingo, 7 de julho de 2013

Uma boa sinopse não é sinal de um bom produto

O primeiro passo para se saber se estamos ou não diante de um bom produto é sua sinopse. É bem verdade que o grande público não tem acesso a uma sinopse completa - seja de novela ou de série - mas ainda assim é possível arriscar-se baseado nas informações que são divulgadas sobre determinada história antes de sua estreia. Este pode ser um caminho perigoso, uma vez que nem sempre a sinopse seja um indicativo verdadeiro sobre o que entrará no ar. Ainda assim, quase sempre é simples saber se estamos ou não diante de uma boa história.

Criar uma boa história é muito difícil. Mais difícil ainda é saber desenvolvê-la com a mesma sagacidade. Quando um autor imagina toda a construção de determinada história em sua mente e resume-a em seu computador, costurando assim a sinopse, pode-se estar diante de uma ideia brilhante. Daí a conseguir desenvolver com a mesma competência, há uma enorme diferença. É surpreendente assistir uma simples história sendo contada de forma competente, mas é frustrante acompanhaá-la enquanto se perde dia após dia.

Existe uma diferença grande entre pensar na história como um todo e colocá-la em prática diariamente - ou semanalmente, no caso de séries - os obstáculos começam a aparecer somente na construção do roteiro diário e é nele que os obstáculos vão aparecendo e, com eles, os atalhos extremamente perigosos que quase sempre culminam no enrosco de um bom projeto. Nem todo autor tem a mesma competência para desenhar um roteiro diário quanto tem para criar as linhas gerais e, quando ele não se atenta a isso, cercando-se de uma equipe competente, os resultados normalmente são desastrosos.

Não basta para um bom produto apresentar histórias e situações ousadas. É preciso contá-las de forma pertinente e crível, fugindo de atalhos quase sempre prejudiciais. Insensato Coração mostrou-se uma novela problemática justamente por equívocos de desenvolvimento. Sua história - muito interessante - foi contada com freio de mão puxado dando um tom de um prólogo eterno para sua primeira metade. 100 capítulos que poderiam ser contados em 40, no máximo e isso acabou por atrapalhar o desenvolvimento saudável da vingança de Norma (Glória Pires).

Balancear o desenvolvimento de uma história não é fácil. Na atualidade quem mostra-se mais competente nisso é João Emanuel Carneiro que consegue fugir das famosas barrigas - período em que não acontece nada nas novelas - criando diversos momentos importantes em suas tramas. Desenvolver uma boa história no timing correto quase sempre resulta em sucesso, vide Avenida Brasil.

A atual novela das 21 Horas, Amor À Vida, é um prato cheio para esta análise. Estreante no horário, Walcyr Carrasco não se fez de rogado e levou para a TV diversos temas polêmicos e pertinentes. Autismo, doença terminal e um vilão gay são três dos muitos temas tratados na novela. Ao se pensar exclusivamente nos temas e no desenho geral da novela parecia claro: estávamos diante de uma grande obra televisiva.

Não é o que acontece na prática. Embora tenha ousado em criar todas essas histórias, o autor se perde ao tentar desenvolvê-las, principalmente porque oferece ao telespectador um texto raso, com situações que não são aproveitadas ao máximo e diálogos didáticos que atrapalham o ritmo da história. Com isso, um folhetim que poderia ser dos mais interessantes, torna-se apenas chato e um desperdício.

Achar o ponto correto para transformar uma boa sinopse em um bom produto não é tarefa fácil. Principalmente se pensarmos que uma novela fica no ar cerca de 07 meses, é uma tarefa hercúlea conduzir esta história diariamente. Mas se o autor se propôs a fazer isso, cabe a ele encontrar instrumentos para conseguir, ou então, o resultado não agrada.

4 Quebraram tudo:

Leddy Silva disse...

O texto é excelente! Muito bem elaborado e analise perfeita. concordo em tudo o Walcyr igual a Gloria Perez tem uma excelente obra nas maos mas igual a ela vem se perdendo com um texto raso,chato e sem graça,eu particulamente desiste de Amor a Vida mas sem duvidas tem tudo para melhorar.

Opinião Na Mente disse...

Período entre fim de Agosto e Setembro de 2012 de Avenida Brasil emocionado com a não-barriga que o João Emanuel tem.

Enfim, o texto é bom, só acho que Walcyr não está tão errado assim na condução de sua história. Os esteriótipos toscos de alguns personagens são engraçados e isso deixa a novela mais leve, sem muita tensão que em alguns momentos cansava até no fenômeno Avenida Brasil.

Lucas Martins Néia disse...

Quando você falou nas dificuldades em desenvolver uma boa sinopse de um modo tão eficiente quanto a concepção da mesma, imediatamente me veio Tiago Santiago à cabeça. O cara tem ideias incríveis, mas derrapa feio no desenvolvimento dos capítulos das suas tramas - sempre rebuscadas de didatismo e falas mastigadas até não poder mais.

Com Walcyr Carrasco anda acontecendo o mesmo. O texto é truncado: perde-se nas mesmas repetições de situações e expressões. Sabemos que Valdirene irá atacar algum famoso, que Perséfane tentará perder a virgindade, que Aline se fará de santa e dobrará César para conseguir dinheiro, que Pilar engolirá mentiras e que Félix falará que "salgou a santa Ceia"!!!

Assim não há telespectador que aguente!

Misho Dean disse...

Realmente. Não há "desenvolvimento" na trama. É um texto consistente e apesar de alguns diálogos de determinados personagens, no geral, há uma linguagem e uma condução bacana bem próxima ao público e à realidade. No entanto, os núcleos paralelos prosseguem à passos de lesma. Assim como a anterior, muitas vezes temos a impressão (que acredito que seja mais um fato do que mera suposição) de que temos muitos personagens e, ao contrário da anterior, muitos personagens e, com eles, muitas histórias também (para alguns muitos). Mas são histórias congeladas, feitas de plano de fundo. Agora, já que ainda falta muito tempo e o autor já começou atropelando tudo pela frente ... vamos ver no que vai dar.

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